Há lugar para todos – Parashat Pinchas#judaismomessiâniconãoexiste14 de Tamuz de 5786 – (29 de junho de 2026)Rabino Shmuel Rabinowitz, Rabino do Muro das Lamentações e Lugares SagradosNa porção da Torá desta semana, inicia-se o processo de transferência da liderança de Moisés, nosso mestre, para seu fiel discípulo, Yehoshua, filho de Num, escolhido para dar continuidade ao seu legado e conduzir o povo à Terra Prometida. A Torá descreve isso da seguinte forma:“Toma Yehoshua, filho de Num, homem de espírito, e impõe sobre ele a tua mão… E concederás sobre ele parte da tua majestade, para que toda a congregação dos filhos de Israel o ouça.”(Números 27:18-20)D’us ordena a Moisés que realize o ato de ordenação perante toda a nação, colocando a mão sobre a cabeça de Yehoshua como símbolo da transferência de autoridade e liderança para seu discípulo. Além disso, Moisés é instruído a transmitir a Ehoshua algumas de suas qualidades espirituais, particularmente seu hod (“majestade” ou “esplendor”) – o brilho espiritual que emanava do rosto de Moisés após sua descida do Monte Sinai.A ordenação de fato ocorre, mas a transferência desse esplendor não se completa. O Talmud ensina:“’E concederás a ele parte de tua majestade’ – parte de tua majestade, mas não toda. Os anciãos daquela geração disseram: ‘O rosto de Moisés era como o rosto do sol; o rosto de Yehoshua era como o rosto da lua. Ai de tal vergonha, ai de tal humilhação.’”(Bava Batra 75a)Nossos sábios descrevem Moisés como o sol e Yehoshua como a lua. Assim como a lua recebe sua luz do sol, Yehoshua recebeu sua força e estatura espiritual de Moisés, seu mestre.No entanto, a declaração dos anciãos levanta uma questão: o que significa “vergonha” e “humilhação”? Era óbvio para todos que Yehoshua não estava no mesmo nível de Moisés. Moisés foi o líder que libertou Israel do Egito, dividiu o Mar Vermelho e recebeu a Torá. Yehoshua, por mais grandioso que fosse, jamais poderia ser considerado igual ao seu mestre. O fato de seu rosto brilhar “como a lua” ainda indica um nível espiritual extraordinariamente elevado. Por que, então, os sábios usam expressões tão duras?Uma explicação notável é oferecida pelo Rabino Chaim Berlin de Volozhin em Ruach Chaim (Avot 1:1). Para compreendê-la, devemos primeiro considerar o ensinamento dos sábios a respeito da criação dos astros celestes. O Talmud (Chullin 60a) relata que, no início da criação, o sol e a lua tinham o mesmo tamanho e brilho. Contudo, a lua queixou-se a D’us: “Dois reis não podem compartilhar uma coroa”. O sol, por outro lado, não viu problema algum em tal arranjo. Como resultado da queixa da lua, sua luz diminuiu e, desde então, ela recebe sua iluminação do sol. No futuro, ensinam nossos sábios, a luz da lua brilhará novamente como brilhava no alvorecer da criação.Nesse contexto, o Rabino Chaim Berlin relembra outro episódio. Na porção de Beha’alotecha, Eldad e Medad permaneceram no acampamento quando os setenta anciãos foram convocados para receber o espírito da profecia. Em sua humildade, sentiram-se indignos de se juntar aos outros. Contudo, precisamente por causa dessa humildade, mereceram um espírito profético único e elevado.Ao presenciar isso, Yehoshua ficou alarmado e apelou a Moisés:“Meu senhor Moisés, impeça-os!”(Números 11:28)Na visão de Yehoshua, essa situação ameaçava o status de Moisés e a estrutura adequada de liderança, na qual um indivíduo está no comando. Portanto, ele pediu a Moisés que parasse com as profecias. Moisés respondeu:“Vocês estão com ciúmes por minha causa? Se ao menos todo o povo do Senhor fosse profeta, o Senhor colocaria o seu Espírito sobre eles!”(Números 11:29)Moisés não via outros profetas como uma ameaça à sua posição. Pelo contrário, considerava-os um sucesso. Sua aspiração era que toda a nação alcançasse a grandeza espiritual. Em seu mundo, não havia competição por santidade ou influência; havia espaço para todos.A declaração dos anciãos agora se torna clara. “O rosto de Moisés era como o rosto do sol” – Moisés se assemelha ao sol, que não teme compartilhar sua luz. Ele não vê problema em ter outros líderes, profetas e grandes personalidades ao seu lado. Em contraste, “o rosto de Yehoshua era como o rosto da lua” – Yehoshua aqui reflete uma perspectiva que lembra a queixa original da lua: a preocupação de que a posição de uma pessoa seja conquistada à custa da de outra.Foi a respeito disso que os anciãos exclamaram: “Ai de nós, que vergonha! Ai de nós, que humilhação!” A vergonha não era que Yehoshus fosse menor que Moisés. Mas sim que ele repetiu o erro da lua ao adotar a ideia de que só havia espaço para uma pessoa no topo. Tal perspectiva é incompatível com o espírito do judaísmo, que vê o sucesso de outra pessoa não como uma ameaça, mas como uma fonte de inspiração.Em nossas próprias vidas, frequentemente encontramos pessoas que parecem estar trilhando o mesmo caminho que almejamos. Naturalmente, podemos, às vezes, temer que o sucesso delas diminua nossas próprias oportunidades. Contudo, a mensagem que emerge desta porção da Torá é diferente: não há necessidade de encarar o sucesso alheio como uma ameaça. Podemos, em vez disso, optar por vê-lo como uma fonte de bênção, inspiração e crescimento.

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