O ramo xiita, que é maior minoria dentro do Islã se forma após a morte do profeta Maomé em 632 EC e se forja em dois martírios ocorridos nos 48 anos seguintes. Não existe xiita sem martírio. O texto é longo e exclusivo. Você não vai encontrar esta explicação em nenhum outro lugar.
_Vídeo com descrição original iraniana: “Uma delegação de intelectuais e ativistas culturais e de mídia da Espanha, Brasil, Argentina, Colômbia, Equador, Bolívia e Nicarágua presta suas homenagens ao líder mártir da revolução.”_
*Constatação: Mojataba Khamenei, se é que está vivo, não compareceu as cerimônias de hoje* onde representantes oficias de alguns governos e não oficias compareceram. O estranho foi uma comitiva oficial da Arábia Saudita e nada estranho a presença de toda a liderança no exílio do Hamas e da Jihad Islâmica.
O martírio, especialmente a partir de Ali, é um elemento central e fundacional na identidade e narrativa histórica xiita, mas não é o único.
A história xiita (particularmente no ramo dos Doze Imames) é profundamente moldada pela narrativa de injustiça, opressão e sacrifício em defesa da verdade. Até a Revolução Iraniana de 1979, se tratava da “injustiça e opressão dos sunitas, a maioria dos muçulmanos, contra os xiitas).
Ali ibn Abi Talib, o primeiro Imame xiita e primo/genro do Profeta Muhammad, foi assassinado em 661 d.C. (40 AH) por um kharijita enquanto orava na mesquita de Kufa, com uma espada envenenada. Seu martírio é visto como parte da luta pela liderança legítima (Imamate) designada por Deus via Muhammad. Onde, por exclusão, os que o assassinaram são ilegítimos.
Os karijitas (ou quraiji, “os que cindiram”) foram o primeiro ramo a formar-se no Islão durante a Primeira Guerra Civil Islâmica de 655—661 entre Ali e Moáuia I sobre quem deveria ser o califa. Inicialmente os partidários de Ali na contenda, rejeitaram as suas pretensões em 657, opondo-se igualmente às de Moáuia. Os xiitas são os “xiat ali”, seguidores ou partidário de Ali.
O evento seminal, porém, é a Batalha de Karbala (680 d.C.), onde Husayn ibn Ali (neto do Profeta e terceiro Imame) e cerca de 72 companheiros foram massacrados pelo exército do califa omíada Yazid I. Isso simboliza o ápice do martírio xiita: resistência ao tirano em nome da justiça, mesmo contra todas asdificulades. Karbala define rituais como o Ashura (luto), procissões, ta’ziyeh (teatro de paixão) e uma teologia de sofrimento redentor. Ou seja, a segunda liderança histórica principal do xiismo foi trucidada no campo da batalha pelos sunitas.
O Califado Omiada (661-750 EC) é de descendentes de Omaia que seria descendente de Abde Manafe, que teria tido, pelo menos duas linhas de filhos de esposas diferentes, uma chegando a Maomé e outra chegando a Omaia. Os sunitas afirmam isso, os xiitas não reconhecem isto. O Califado Omiada foi o que rapidamente criou o primeiro império islâmico, inclusive conquistando a Península Ibérica menos a faixa ao norte já nas encostas do Pirineus. Ia dali até a Índia (englobando o que hoje é o Paquistão),
A identidade xiita enfatiza que os Imames são infalíveis, guiados por Deus e frequentemente vítimas de perseguição. O martírio não é só político, mas espiritual: os Imames (e seus seguidores) sofrem para preservar o Islã autêntico, o xiita, pois a maioria dos muçulmanos, segundo eles é falsa. Quase todos os 11 primeiros Imames são considerados mártires (por espada ou veneno), reforçando essa narrativa.
A maioria dos outros Imames foi envenenada por ordens de califas (Abbasidas ou Omíadas), não mortos diretamente em campo de batalha. Exemplos:
Hasan ibn Ali (segundo Imame): Envenenado (segundo visão xiita). Muitos outros (como Musa al-Kadhim, Ali al-Rida etc.) por veneno. A tradição xiita afirma que todos os 11 primeiros Imames foram martirizados.
Karbala permanece o paradigma; outros mártires xiitas incluem figuras em revoltas posteriores, mas os Imames são os centrais.
Exite um dispositivo teológico islâmico para adiar um funeral por vários meses?
Não existe um dispositivo teológico islâmico padrão (nem sunita nem xiita) que permita ou incentive adiar o funeral por vários meses. O Islã enfatiza fortemente apressar o sepultamento como forma de honrar o falecido. Hadiths do Profeta Muhammad recomendam não demorar: “Apressai o funeral”. O ideal é sepultar o mais rápido possível, preferencialmente no mesmo dia ou dentro de 24-48 horas, após lavagem ritual do corpo (ghusl), o envolvimento na mortalha (kafan) e oração fúnebre (salat al-janaza).
Razões para atrasos limitados (geralmente dias, não meses):
Esperar parentes próximos (curto período, sem decomposição). Circunstâncias extraordinárias (ex.: morte no mar, disputas sucessórias como no caso do Profeta Muhammad, cujo sepultamento foi adiado por 1-2 dias enquanto os companheiros discutiam a liderança). No xiismo, há precauções contra atrasos excessivos que causem decomposição; transferir corpos para santuários (ex.: Najaf, Karbala) só é permitido se não violar isso.
Obviamente o adiamento do do funeral de Ali Khamenei violaria isso. Mas não é bem assim. Os restos mortais dele, num caixão, aliás muito bonito, o que é totalmente fora do conceito do enterro islâmico, que é feito em mortalha de tecido foi realizado assim que foi possível. O que aconteceu dias atrás foi a abertura do túmulo e remoção do caixão dele e dos familiares, para uma imensa cerimônia ritual e novo sepultamento num memorial. Portanto, nada foi transgredido dentro da teologia. Como no judaísmo a exumação para fins judiciais ou traslado do corpo de um cemitério para outro (que é o caso), são realizadas com autorização formal de um rabino ou de um clérigo muçulmano. Tudo dentro das normas teológicas.
Atrasos longos (meses) vão contra a sunnah e podem ser vistos como desrespeito ao falecido (o corpo deve retornar à terra rapidamente). Exceções modernas (ex.: autópsias legais, transporte internacional) são pragmáticas, não teológicas, e geralmente envolvem preservação (embalsamamento, que é controverso ou restrito). Não há base corânica ou hadith para atrasos prolongados como norma.
Em resumo, o martírio desde Ali (e especialmente Husayn) é o coração da memória xiita, diferenciando-a em rituais e teologia de sofrimento. A revolução islâmica está colocando Ali Khamanei no mesmo patamar teológico de Ali ibn Abi Talib e de Husayn ibn Ali. Existe ainda o fato de Khamenei carregar o nome de Ali, o que os iguala mais ainda.
Por José Roitberg – jornalista e pesquisador
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