*Exclusivo: O acerto de contas de Rahm Emanuel em Jerusalém*

_Uma entrevista com um candidato presidencial em formação._

*Por Amit Segal 10 de julho de 2026*

_O ex-chefe de gabinete da Casa Branca, Rahm Emanuel, fala durante uma conferência na Universidade de Tel Aviv, em Tel Aviv, em 8 de julho de 2026._

É sexta-feira, 10 de julho, e quatro dedos e meio são erguidos diante do meu rosto — a metade do quinto dedo foi perdida em um cortador de carne quando Rahm Emanuel era adolescente. Ex-chefe de gabinete de Barack Obama, ex-prefeito de Chicago e, muito provavelmente, candidato à próxima disputa presidencial pelo Partido Democrata, ele chegou a Jerusalém com um senso de missão. Na manhã seguinte, abriria seu discurso na Universidade de Tel Aviv dizendo: “Hoje é um dia para a verdade.” No terraço do Hotel King David, com a Cidade Velha estendida abaixo de nós, ele já demonstra essa postura: parte Jesus, parte Elias — o salvador que desce para confrontar Israel por seus pecados, o profeta que adverte sobre a ira dos Estados Unidos e conclama ao arrependimento.

“Vocês perderam a Europa, perderam os Estados Unidos e ganharam a Somalilândia”, diz. “O isolamento diplomático e internacional é um caminho insustentável.”

Na visão dele, a solução é ampliar o problema.

“Às vezes, quando você tem um problema, precisa torná-lo maior.”

E o que ele quer dizer com isso é acrescentar uma normalização completa das relações com o mundo árabe à antiga fórmula dos dois Estados. A chamada “Solução dos 23 Estados” — expressão que ele utiliza — consiste na velha solução de dois Estados, acrescida do peso político, econômico e diplomático de todo o mundo árabe como garantidor, investidor e fiscalizador.

“Acho que existe uma oportunidade para romper esse impasse. Vinte e um é melhor do que um.”

“Esse é o incentivo”, respondo. “Mas qual é a punição?”

Em Jerusalém ele evita responder, mas no dia seguinte, em Tel Aviv, deixa claro:

“Se depender de mim, colonos que atacarem palestinos serão sancionados. As autoridades que os apoiarem serão sancionadas. E os bancos que os financiarem também serão sancionados.”

De volta ao terraço do hotel, ele retoma seu plano.

Segundo Emanuel, a Liga Árabe possui seu próprio interesse — estabilidade — e esse desejo pode ser usado como alavanca.

“Desta vez não depende de Israel, como acontecia nos anos 90. Depende deles.”

Eles precisam criar um parceiro palestino legítimo, que reconheça a ligação histórica do povo judeu com esta terra, aceite que “não se é recompensado por matar pessoas” e deixe de ensinar às crianças a odiarem judeus simplesmente por serem judeus.

Ele observa que essa exigência é mais elevada do que a estabelecida pelos Acordos de Oslo.

Nesse momento, seu tom torna-se acusatório.

“Eu não participei da decisão de enviar 6 bilhões de dólares ao Hamas enquanto a Autoridade Palestina era deixada à míngua. Não fui eu quem tomou essa decisão.”

Segundo ele, foi uma escolha do governo israelense.

“E não terminou muito bem.”

Na visão de Emanuel, trata-se de retomar aquilo que já funcionou:

“Trabalhar com Estados nacionais, como Egito, Jordânia e os Acordos de Abraão.”

Essa é a lógica dos “21”: envolver a Liga Árabe, fazê-la investir e assumir responsabilidade.

“Eles usam os palestinos como slogan. Está na hora de arregaçar as mangas e criar um parceiro de verdade.”

Eu argumento que Israel já tentou esse caminho durante o governo Clinton.

Hoje, cerca de 93% dos israelenses chegaram às próprias conclusões após tudo o que aconteceu — não por causa deste governo ou de Netanyahu, mas por causa da experiência com o lado palestino.

Mesmo que Gadi Eisenkot fosse eleito amanhã, formando uma coalizão com Bennett, Lieberman, Lapid e Yair Golan, apenas cerca de 7% dos israelenses apoiariam essa proposta.

Como convencer a sociedade israelense?

Emanuel pensa por alguns segundos.

“Vamos testar.”

Pergunto: testar como, depois de tudo o que aconteceu?

“Você nunca sabe até tentar. Isso não acontece da noite para o dia.”

Segundo ele, a diferença entre “dois Estados” e “23 Estados” é justamente aumentar o valor político da proposta.

Ele se inclina para frente.

“Está no DNA do Estado de Israel e do povo judeu aquilo que Ben-Gurion desejava: ser uma nação entre as nações. Ninguém quer voltar para um gueto.”

Emanuel insiste que não é apenas um crítico.

“Ao contrário de outros americanos, eu não vim apenas criticar. Eu trouxe um plano de paz e um componente econômico.”

Depois recorre a uma frase que, claramente, já repetiu inúmeras vezes:

“Sabe o que chega à mesa do presidente? Apenas decisões ruins e piores. As boas e as ruins o chefe de gabinete resolve. O presidente só recebe o ruim e o pior.”

Ele admite que seu plano está longe da perfeição.

Mas conclui:

“Se a alternativa for simplesmente manter o status quo, eu não entro mais nesse ônibus.”

Pergunto o que acontece daqui a quatro ou cinco anos caso Israel simplesmente rejeite qualquer solução regional ou de dois Estados.

Sua resposta muda completamente o foco.

“Entre os americanos com menos de 30 anos, o apoio a Israel está na faixa dos vinte e poucos por cento.”

E acrescenta:

“Eles só vão envelhecer. Não vão desaparecer.”

Segundo ele, uma geração cresceu tendo a Guerra dos Seis Dias de 1967 como referência histórica.

A próxima crescerá tendo Gaza como referência.

“Isso é um fato.”

Nesse momento ele abandona o tom de vendedor e assume o de promotor.

“Vocês acham que isso vai durar mais 22 anos?”

Sem esperar resposta, afirma que tanto a via diplomática quanto a militar fracassaram.

Segundo Emanuel, Israel finalmente conseguiu aquilo que queria militarmente.

“Agora vocês estão mais fracos e o Irã está mais forte.”

Ele afirma que o regime iraniano, antes de 7 de outubro, enfrentava uma grave crise de legitimidade interna.

Agora, segundo ele:

“O Irã descobriu que consegue suportar ataques de Israel e dos Estados Unidos. Continua de pé.”

E isso envia uma mensagem aos países do Golfo:

“Nós sobrevivemos. E eles não conseguem protegê-los.”

Sobre Donald Trump, Emanuel é ainda mais duro.

“É por isso que me oponho ao que o presidente Trump está fazendo.”

Segundo ele, Trump abandonou aliados históricos dos Estados Unidos.

“Os aliados multiplicam a força americana.”

Afirma ainda que Trump trata Israel como propriedade.

“Temos um presidente dizendo: ‘O Bibi é meu. Ele fará o que eu quiser.’ Nenhum presidente democrata jamais falou assim sobre um primeiro-ministro israelense.”

Também sustenta que:

* a Turquia está mais ousada;
* Egito e Jordânia estão profundamente afastados;
* Europa, Canadá, Austrália e Estados Unidos estão se distanciando de Israel.

Questionado se essa visão decorre da transformação do Partido Democrata, Emanuel responde que o problema é geracional, não partidário.

Mesmo assim admite que a decisão de Netanyahu, em 2015, de aproximar-se fortemente do Partido Republicano acelerou esse processo.

“Não sei se aconteceria de qualquer forma. Mas acelerou.”

Pergunto sobre Zohran Mamdani, o crescimento da ala progressista e a impressão de muitos israelenses de que o Partido Democrata foi capturado por setores radicais.

Emanuel responde cuidadosamente.

“Não acho que o Partido Democrata tenha sido sequestrado.”

Sobre o encontro de Barack Obama com Mamdani, minimiza:

“Você está colocando isso nas costas de Obama. O presidente Clinton também se encontrou com ele.”

Para Emanuel, o problema é americano, não democrata.

Pergunto então se alguém pode defender o slogan “Do rio ao mar” sem ser antissemita.

Ele não responde diretamente.

Retruca:

“É possível defender um Grande Israel sem ser anti-palestino?”

No dia seguinte, em seu discurso, explicaria melhor sua posição:

“A busca por um chamado Grande Israel é tão autodestrutiva e fanática quanto o slogan ‘Do rio ao mar’. Ambos são fantasias entoadas por fanáticos.”

O autor da entrevista observa que essa comparação seria artificial, já que “Grande Israel” é uma expressão pouco utilizada pelos próprios israelenses, enquanto “Do rio ao mar” tornou-se um slogan repetido em manifestações internacionais com centenas de milhares de participantes.

Pergunto então se Mamdani e o grupo conhecido como “The Squad” são antissemitas.

Emanuel conta que se encontrou pessoalmente com Mamdani.

Logo na chegada brincou:

“Quem vai odiar mais isso, meu rabino ou Alexandria Ocasio-Cortez?”

Depois afirma ter dito diretamente a ele:

“Você é filho do seu pai. Mas eu também sou filho do meu. Nunca haverá um ‘do rio ao mar’.”

Seu pai lutou no Irgun durante a Guerra da Independência de Israel.

Ainda assim, Emanuel insiste:

“Essas pessoas não representam o Partido Democrata. Nem representam o país.”

Segundo ele, basta observar quais políticos democratas realmente participam das campanhas eleitorais competitivas.

“Ninguém que disputa um distrito republicano convida essas pessoas para fazer campanha.”

Na visão dele, a política americana continua sendo decidida por cerca de meio milhão de eleitores distribuídos em sete estados decisivos, e esse eleitorado não compartilha das posições mais radicais da esquerda.

Ao final da entrevista, pergunto quando ele anunciará oficialmente sua candidatura à presidência.

Ele responde sorrindo:

“Se eu fosse anunciar, certamente não seria para você. Sei que isso parte seu coração.”

Pergunto então se um judeu ainda pode ser eleito presidente dos Estados Unidos pelo Partido Democrata.

“Pode.”

Ele se preocupa com o antissemitismo dentro do partido?

“Minha fé não é o problema. O problema é que os americanos perderam a fé na própria América. Se minha religião for o seu problema, então não vote em mim.”

Ao deixar o hotel, permanece a pergunta central: por que Rahm Emanuel veio a Israel?

O autor conclui que a viagem não tinha como objetivo convencer Netanyahu, nem os israelenses, nem mesmo a comunidade acadêmica.

Seu verdadeiro público seria o próprio Partido Democrata.

Na avaliação do articulista, Emanuel aposta que a onda mais radical perderá força antes da eleição presidencial de 2028 e tenta posicionar-se desde já como a alternativa “moderada”: um democrata disposto a criticar Israel, mas sem romper completamente com o apoio histórico ao país.

O texto conclui afirmando que o verdadeiro problema de Emanuel não é Benjamin Netanyahu, mas o fato de que a esmagadora maioria dos israelenses chegou, pela própria experiência, a conclusões muito diferentes das dele.

E encerra com uma observação contundente:

“O problema de Israel é que Rahm Emanuel provavelmente é o democrata mais pró-Israel que visitará o país em um bom tempo — e esse ‘amor duro’ talvez seja o único tipo de apoio que Israel receberá desse lado do espectro político nos próximos anos.”

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