A Haftará de Tishá BeAv – Explicação Contínua (Jeremias 8:13–9:23)

A Haftará de Tishá BeAv é uma das profecias mais profundas e emocionantes do Tanach. Nela, o profeta Jeremias não apenas anuncia a destruição de Jerusalém e do Templo, mas procura revelar as causas espirituais e morais que levaram à tragédia. Ao mesmo tempo, ele oferece um caminho para a reconstrução.
A profecia começa com as palavras de Deus:
“Recolherei completamente este povo – diz o Senhor. Não há uvas na videira, nem figos na figueira; até as folhas murcharam.”
A videira e a figueira representam o povo de Israel. Uma árvore existe para produzir frutos. Da mesma forma, Israel foi chamado para produzir frutos espirituais: justiça, bondade, fidelidade, santidade e conhecimento de Deus. O problema não era apenas que o povo cometia pecados; era que havia deixado de cumprir sua missão. A árvore permanecia de pé, mas já não produzia frutos.
Em seguida, o povo percebe que o inimigo se aproxima e procura refúgio nas cidades fortificadas. Contudo, Jeremias mostra que muralhas não podem proteger uma sociedade cuja base espiritual foi destruída. O verdadeiro problema não era militar, mas moral: “Porque pecamos contra o Senhor.”
O profeta continua dizendo:
“Esperávamos paz, mas não veio o bem; esperávamos cura, mas veio o terror.”
O povo havia depositado sua esperança em falsas promessas dos falsos profetas, que anunciavam paz sem exigir arrependimento. Jeremias ensina que o verdadeiro otimismo nunca pode ser construído sobre a negação da realidade. A esperança autêntica nasce da coragem de enfrentar a verdade.
Pouco depois, o profeta descreve o som dos cavalos do exército babilônico chegando pelo norte. O desastre já não é uma possibilidade distante; tornou-se inevitável. Deus então compara os invasores a serpentes venenosas contra as quais não existe encantamento nem defesa. A mensagem é clara: quando uma sociedade ignora repetidamente todos os sinais de advertência moral, chega um momento em que as consequências tornam-se praticamente inevitáveis.
Nesse ponto, a voz do próprio Jeremias muda completamente de tom. Ele deixa de falar como anunciador do julgamento e passa a falar como alguém de coração partido.
Ele diz:
“Procuro consolar-me, mas meu coração está enfermo.”
O profeta sofre junto com seu povo. O verdadeiro líder não apenas denuncia os erros; ele também chora pelas pessoas que ama.
Logo em seguida, Jeremias imagina o grito dos exilados perguntando:
“Será que o Senhor já não está em Sião?”
E Deus responde:
“Por que Me provocaram com seus ídolos?”
A distância entre Deus e o povo não começou porque Deus abandonou Israel; começou quando Israel substituiu Deus por outros “deuses”. Esses ídolos não são apenas imagens de pedra. Em qualquer geração, podem ser o dinheiro, o poder, o ego, o sucesso ou qualquer outra coisa que ocupe o lugar central que pertence somente a Deus.
O profeta então pronuncia uma das frases mais famosas da Bíblia:
“Passou a colheita, terminou o verão, e nós não fomos salvos.”
As estações passaram, as oportunidades passaram, mas o povo permaneceu o mesmo. Jeremias alerta contra o adiamento permanente da mudança. Quantas vezes o ser humano diz: “Depois eu mudo”, “Depois eu me aproximo de Deus”, “Depois eu terei tempo”. Enquanto isso, a vida passa.
Jeremias continua:
“Por causa da ferida da filha do meu povo, eu também estou ferido.”
Ele sente a dor do povo como se fosse sua própria dor.
A primeira parte termina com uma pergunta extraordinária:
“Acaso não há bálsamo em Gileade? Não há médico ali? Então por que a ferida do meu povo não foi curada?”
O bálsamo de Gileade era famoso no mundo antigo por seu poder medicinal. Jeremias usa essa imagem para ensinar que o problema não era a falta de remédio. O remédio existia: a Torá, os profetas e o caminho do arrependimento. O problema era que o doente recusava o tratamento.
No capítulo seguinte, Jeremias expressa um lamento ainda mais profundo:
“Quem dera minha cabeça fosse água e meus olhos uma fonte de lágrimas, para que eu chorasse dia e noite.”
As lágrimas do profeta revelam que o sofrimento de Israel não lhe era indiferente.
Logo depois ele exclama:
“Quem me dera uma hospedaria no deserto para que eu pudesse deixar meu povo.”
Não porque deixou de amá-los, mas porque era insuportável testemunhar tanta corrupção moral.
Jeremias passa então a identificar a verdadeira raiz da destruição.
Ele afirma que a língua tornou-se um arco, e as palavras, flechas. O instrumento criado para comunicar a verdade havia sido transformado em arma de mentira.
As pessoas já não confiavam umas nas outras. Irmãos enganavam irmãos. Amigos traíam amigos. A mentira havia deixado de ser um erro ocasional para tornar-se um modo de vida.
O profeta afirma que eles “aprenderam a falar mentira”. Isso mostra que o caráter é formado pelos hábitos. Assim como alguém aprende a dizer a verdade, também aprende a mentir.
Deus então declara:
“Vou refiná-los como se refina o metal.”
O refinamento pelo fogo não é um ato de vingança, mas de purificação. Assim como o ouro é colocado no fogo para remover suas impurezas, também o sofrimento pode servir para purificar um povo.
A seguir, Jeremias lamenta a destruição da própria Terra de Israel. Os montes e os campos tornaram-se desertos.
Então surge uma pergunta impressionante:
“Quem é suficientemente sábio para compreender por que a terra foi destruída?”
O Talmud explica que nem os sábios nem os profetas conseguiram responder. Somente o próprio Deus revelou a causa.
A resposta divina é clara:
“Porque abandonaram Minha Torá.”
Os Sábios explicam que isso não significa simplesmente que deixaram de estudar. Eles continuavam estudando, mas perderam a consciência de que a Torá é a Palavra viva de Deus. Ela havia se transformado em conhecimento intelectual, deixando de orientar concretamente a vida.
A partir desse afastamento vieram todas as demais consequências: deixaram de ouvir a voz de Deus, passaram a seguir apenas seus próprios desejos e, finalmente, adotaram a idolatria.
A idolatria aqui representa muito mais do que imagens esculpidas. Representa qualquer coisa que ocupa o lugar de Deus como centro da existência.
Por isso Deus afirma que lhes dará “absinto e águas amargas”, símbolos da amargura produzida por uma vida separada de sua verdadeira fonte.
Na parte final da Haftará, Deus manda chamar as mulheres que entoavam lamentações para que toda a nação chore. O objetivo do choro não é produzir desespero, mas quebrar a indiferença. Uma pessoa que ainda consegue chorar pelo estado espiritual da sociedade ainda conserva esperança de transformação.
Depois de descrever o tamanho da destruição, Jeremias conclui com uma das maiores lições de toda a Bíblia:
“Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio em sua sabedoria, nem o forte em sua força, nem o rico em sua riqueza.”
A sabedoria, a força e a riqueza são bênçãos. O problema surge quando elas se tornam a fonte da identidade humana.
O valor de uma pessoa não depende daquilo que possui, mas daquilo que ela é diante de Deus.
Então vem o versículo que resume toda a Haftará:
“Mas quem quiser gloriar-se, glorie-se nisto: em compreender e conhecer a Mim, pois Eu sou o Senhor, que pratico bondade, justiça e retidão na terra; porque é dessas coisas que Me agrado.”
Conhecer Deus não significa apenas possuir conhecimento religioso. Na linguagem bíblica, conhecer significa viver um relacionamento profundo que transforma a vida.
E como alguém conhece Deus?
Imitando Seus atributos.
Deus pratica bondade, justiça e retidão. Portanto, quem deseja conhecê-Lo deve construir sua vida sobre esses mesmos fundamentos.
Essa é a grande mensagem de Tishá BeAv.
O Templo não foi destruído apenas por um exército estrangeiro. Sua destruição começou muito antes, quando a verdade foi substituída pela mentira, a confiança pela corrupção, a Torá deixou de orientar a vida e Deus deixou de ocupar o centro da existência.
Da mesma forma, a reconstrução também começa antes das pedras.
Ela começa quando cada pessoa decide reconstruir sua própria vida sobre a verdade, a justiça, a bondade, a integridade e o conhecimento de Deus.
Somente uma sociedade construída sobre esses pilares torna-se novamente digna da presença da Shechiná e da reconstrução do Templo.

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