BOM DIA! Semana passada, como você deve se lembrar, escrevi sobre as “3 Semanas” e sobrecomo, historicamente, tem sido um período de calamidades para a nação judaica. Logo após o envio da edição por e-mail, recebi uma mensagem que começava assim:“Caro Rabino Zweig… Perdi minha filha… minha única filha – na sexta-feira, 3 de julho. Sinto-medesmoronar; meu coração está partido. Eu estava aqui rezando para que o senhor me enviasse algo e, de repente, recebi isto de você. Era isso que o Rabino Packouz fazia por mim há muitos anos… parece algo irreal para a maioria das pessoas, mas eu sei o que sei: eu e D’us… temos uma ligação muito forte.Sou imensamente grata. Já não consigo enxergar para digitar, mas queria que você soubesse…”Então, justamente quando me sentei para escrever a coluna desta semana, recebi a notícia de que um dos meus amigos, o Rabino Nosson Glueck — um homem a quem conheço e admiro há mais de 50 anos —, havia falecido repentinamente. Usamos termos como ‘gênio’ e ‘brilhante’ com certa leviandade, mas essas palavras descreviam com precisão quem ele era. Que sua memória seja uma bênção.Basta dizer que me sinto plenamente imerso nos sentimentos de perda associados às “Três Semanas”.Existem dois elementos distintos na superação de uma perda: o sofrimento interno e o luto externo. O sofrimento interno é a reação emocional, psicológica e até física a uma perda; é aquilo que a pessoa vivencia em seu íntimo. Esse processo envolve encontrar maneiras de atravessar a dor, colocar a perda em perspectiva e internalizar a nova realidade e a própria identidade na ausência da pessoa amada.O luto, por outro lado, é a expressão externa desse sofrimento. Ele engloba os comportamentos, rituais, costumes e práticas por meio dos quais a dor é manifestada. Grande parte do processo de luto consiste em expressar os sentimentos de perda — a sensação de que algo que antes era parte integrante de nossa identidade foi retirado e de que agora somos ‘menos’.É por isso que o período de luto prescrito pelo judaísmo pela perda de parentes próximos (conhecido como shivá) é tão importante. É um momento em que familiares e amigos se reúnem para visitar os enlutados e expressar sua dor e pesar compartilhados — uma prática conhecida como ‘nihum aveilim’ (consolar os enlutados). O objetivo da visita é permitir que o enlutado se sinta conectado a outras pessoas — fontes de vida e energia —, o que pode ajudar a aliviar a dor da separação de alguém próximo.Embora o luto seja, inicialmente, um período de escuridão e dor, esse processo de redefinição marca também o início de uma passagem rumo à luz e à cura. Essa conexão comunitária é fundamental para que a pessoa restaure seu espírito e comece a se curar. Estar presente ajuda o enlutado nesse processo de redefinição pessoal e facilita o caminho para seguir em frente.Este Shabat — o Shabat seguinte a Tishá B’Av — é chamado de Shabat Nahamu, que significa “Shabat do Consolo”. O nome deriva das primeiras palavras da haftará (uma leitura das Escrituras realizada na sinagoga após a porção semanal da Torá). A haftará desta semana provém do capítulo 40 do Profeta Isaías e começa com as palavras: “*Nahamu, Nahamu, ami* — Consolai-vos, consolai-vos, Meu povo”. Essa profecia do TodoPoderoso traz conforto e proporciona alívio. Saber que o Todo-Poderoso está sempre presente em nossas vidas e que Ele não nos abandonou é a própria definição de estar “conectado”.O Shabat Nahamu não é um Shabat comum; ele promove conforto e alívio, e existe a tradição de celebrálo quase como um dia festivo. Nossos Sábios (veja Ritva em Taanit 30a) afirmam que a comida consumida neste Shabat deve ser muito especial — como a de uma festividade. Este é o primeiro dos 7 Shabatot (plural de Shabat) de consolo, mas o único que possui esse status elevado e especial.De forma muito apropriada, a porção da Torá desta semana contém aquele que talvez seja o versículo mais famoso e importante do judaísmo, conhecido como “Shemá Israel”:”Ouça, ó Israel; o Senhor, nosso D’us, é um Único Senhor;”Esse versículo é um elemento central das orações matinais e vespertinas e sintetiza a essência monoteísta do judaísmo. De fato, essa declaração concisa tornou-se fundamental para o povo judeu e constitui também oponto culminante da ‘Neilá’, as orações finais do dia mais sagrado do ano: Yom Kipur. O Shemá Israel é recitado todas as noites antes de dormir e, tradicionalmente, constitui também as últimas palavras de um judeu ao se preparar para deixar este mundo.O Shemá não é apenas uma declaração teológica; é uma afirmação de identidade e existência. Se adefinição que alguém tem de si mesmo se baseia em coisas finitas — como riqueza, carreira ou o corpo físico —, então essa pessoa é meramente um ser finito.No entanto, aquele que define sua existência por meio de uma conexão com o Todo-Poderoso, a Torá e o povo judeu está definindo a si mesmo por algo eterno. Um judeu morre com o Shemá nos lábios porque, naquele momento, ele afirma que toda a sua vida girou em torno de algo infinito: a missão de ser um embaixador do Todo-Poderoso e de vincular sua identidade ao destino eterno da nação.O Shemá Israel sintetiza a compreensão do judaísmo sobre a essência do Todo-Poderoso e como tudo na Criação está, em última análise, conectado e unificado em Sua singularidade. A própria estrutura desse versículo está gravada na psique judaica desde a mais tenra idade.Um dos mais notáveis fundadores de escolas e comunidades judaicas no século XX foi o Rabino Yossef Shlomo Kahaneman (Lituânia – Israel, 1886-1969), também conhecido como o ‘Rabino de Ponovich’. Ele era um erudito brilhante, com uma devoção e um compromisso inesgotáveis para com o povo judeu. Após a SegundaGuerra Mundial, ele viajou pelo mundo para reconstruir o que havia sido perdido, e as histórias sobre seus feitos tornaram-se lendárias.Uma dessas histórias conta que, logo após o fim da guerra, o Rabino Kahaneman viajou para a Europa a fim de reunir órfãos judeus e levá-los para Israel. Muitas crianças judias haviam sido confiadas a conventos ou orfanatos por seus pais — condenados à morte e prestes a serem deportados para os campos de extermínio—, e os responsáveis locais relutavam em entregá-las.Em um orfanato, o responsável disse ao Rabino Kahaneman que não havia crianças judias ali. Sem se deixar abater, o Rabino Kahaneman posicionou-se diante dos órfãos e entoou em voz alta e retumbante a oração do “Shemá Israel”; imediatamente, crianças pequenas — que haviam ouvido aquelas palavras sagradas pela última vez anos antes, quando seus pais as colocavam na cama — começaram a chorar e a chamar por”Mamãe! Papai!”. O Rabino Kahaneman obteve êxito, resgatou muitos órfãos e os levou para Israel. A lembrança dessa oração essencial acabou por conduzi-los a uma nova vida em Israel.O Dr. Viktor Frankl (Áustria, 1905-1997), outro sobrevivente do Holocausto, era médico e se tornou um dos pensadores mais famosos do século XX. Hoje, ele é lembrado como um dos principais psicoterapeutas que fundou o conceito de logoterapia, uma terapia focada na busca de sentido na vida. Sua obra mais famosa sechama “Em Busca de Sentido”, que foi traduzida para 50 idiomas e vendeu mais de 16 milhões de exemplares.Em seu livro, ele descreve suas experiências nos campos de concentração nazistas, mas, mais do que seus sofrimentos, ele escreve como psicólogo sobre o que lhe deu forças para sobreviver. Ele relata que os prisioneiros que desistiam da vida e da esperança em um futuro eram inevitavelmente os primeiros a morrer.Morriam mais pela falta de um motivo para viver do que pela falta de comida. Em contraste, ele se manteve vivo pensando em sua esposa e sonhando em dar palestras sobre como suas experiências reforçaram o que já era parte central de sua tese antes de entrar nos campos: que a principal força motivadora de cada pessoaé a busca por sentido.Pouco após chegar a Auschwitz, Frankl foi despojado de seu bem mais precioso – um manuscrito que era a obra de sua vida, que ele havia escondido no bolso do casaco e considerava seu “filho mental”. Percebendoque as chances de sobrevivência eram pequenas, teve o que descreve como “talvez sua experiência mais profunda nos campos de concentração”.“Tive que superar a perda do meu filho mental. E agora parecia que nada nem ninguém sobreviveria a mim; nem um filho físico nem um filho mental. Assim, me vi confrontado com a questão de que, nessas circunstâncias, minha vida era, em última análise, vazia de sentido.”Eu ainda não percebi que uma resposta para essa pergunta, com a qual eu lutava tão apaixonadamente, já estava reservada para mim e que, logo depois, ela me seria dada. Quando cheguei, tive que entregar minhas roupas e, em troca, herdei os trapos esfarrapados de um prisioneiro que já havia sido enviado paraa câmara de gás. Encontrei no bolso do casaco recém-adquirido uma única página arrancada de um livro hebraico de orações, contendo a mais importante oração judaica, o Shemá Israel”.“Como eu deveria interpretar tal ‘coincidência’ senão como um desafio para viver meus pensamentos em vez de simplesmente colocá-los no papel?” Esse pequeno pedaço de papel que, providencialmente, caiu em suas mãos, tornou-se a pedra angular do resto de sua vida.Então, na frase final deste livro de grande sucesso, Frankl recorre novamente a essa declaração de fé atemporal:“Nossa geração é realista, pois passamos a conhecer o ser humano como ele realmente é. Afinal, o ser humano é aquele que inventou as câmaras de gás de Auschwitz; no entanto, é também aquele que entrou nessas câmaras de gás de cabeça erguida, com o Shemá Israel em seus lábios”.É dessa compreensão — de que estamos todos, em última análise, conectados e de que tudo no universo está unido pela singularidade absoluta do Todo-Poderoso — que devemos extrair forças para curar e seguir em frente. Que seja a vontade do Todo-Poderoso que todos aqueles que sofreram perdas encontrem esperança e consolo e que nossas comunidades fragmentadas se tornem unidas e íntegras novamente. Amén!

Rav Ytzchak Zweig
Fonte: Meor HaShabat
#judaísmomessiâniconãoexiste

never again

Shabat shalom/Chaverim, é da maior importância que leiamos e assinemos a proposta legislativa acima, que ainda conta com apoio restrito, mas que facilitará enormemente a vida dos Judeus no Brasil!  ASSINEM! APÓIEM!!!! DIVULGUEM!!!!
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