Isso deveria ser um escândalo global. Dia após dia, mais e mais “médicos de Gaza” estão se revelando combatentes do Hamas e da Jihad Islâmica disfarçados. Tal como Israel disse o tempo todo, e ninguém quis ouvir…

*Registros de óbitos em Gaza mostram que alguns supostos profissionais de saúde atuavam para grupos terroristas*

Em 8 de setembro de 2025, cerca de um mês antes de os combates em Gaza serem interrompidos, Mohammed Akram al-Kafarna foi morto em um ataque israelense.

Após sua morte, o Sindicato Palestino de Enfermeiros e Parteiras lamentou al-Kafarna como o chefe em Gaza da associação médica.

O Conselho Internacional de Enfermeiros (ICN), sediado em Genebra e que se autodenomina “a voz global da enfermagem”, escreveu numa carta de condolências que estava “profundamente entristecido pela morte do Dr. Mohammed Akram al-Kafarna, um dos líderes da profissão de enfermagem palestina em Gaza”.

Ele estaria “entre as centenas de enfermeiros e profissionais de saúde que tragicamente perderam suas vidas durante o conflito”, acrescentou o ICN, segundo cópia da carta publicada no Facebook.

Mas al-Kafarna não era exatamente uma Florence Nightingale. *Segundo o próprio Hamas, além do trabalho médico, al-Kafarna também era combatente no Batalhão Nidal Nasser em Beit Hanoun, parte da Brigada Norte de Gaza do grupo.*

Em uma imagem publicada pelo Hamas, al-Kafarna aparece em traje militar completo, empunhando um fuzil carregado.

Seu nome é um dos dezenas divulgados pelo Hamas e pelo grupo terrorista aliado Jihad Islâmica nos últimos meses, identificando tardiamente muitos de seus combatentes mortos ao longo dos dois anos de guerra deflagrada pelo massacre de 7 de outubro de 2023, no sul de Israel.

Entre os nomes estão não apenas figuras antes identificadas como jornalistas e atletas, mas também profissionais da saúde – médicos, enfermeiros e funcionários de hospitais.

As revelações de que essas pessoas tinham papéis duplos, que as tornariam alvos militares legítimos, lançaram dúvidas sobre acusações de que as Forças de Defesa de Israel (IDF) atacaram civis inocentes, inclusive em funções que, em tese, gozam de proteções especiais.

Ao menos 18 moradores de Gaza mortos na guerra e reportados como profissionais de saúde — incluindo médicos, enfermeiros, paramédicos e outros funcionários de hospitais ou do Ministério da Saúde controlado pelo Hamas, apareceram posteriormente em listas do Hamas e da Jihad Islâmica Palestina que os identificam como membros dos grupos.

Os nomes desses 18 foram inicialmente compilados pelo pesquisador independente Salo Aizenberg e confirmados pelo The Times of Israel.

*Apesar das admissões, entidades que monitoram mortes na guerra seguem listando essas figuras como profissionais de saúde*. No site do ICN, a nota condenando a morte de al-Kafarna permanece disponível, assim como a afirmação de que sua morte configuraria violação do direito internacional.

O papel da saúde em meio aos combates em Gaza tem sido um dos pontos mais sensíveis, com Israel acusado de mirar hospitais e socorristas durante toda a guerra. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas – grupo que governa de fato o território desde 2007 -, 1.141 profissionais de saúde estão entre as aproximadamente 70 mil pessoas mortas em Gaza desde 7 de outubro de 2023. Organizações de direitos humanos, citando o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, afirmam que o número passa de 1.500.

Os balanços do Ministério da Saúde de Gaza, que nunca diferenciaram civis de combatentes, são considerados suspeitos por Israel dado o papel do Hamas na administração dos serviços de saúde e resgate no território. Durante a guerra, Israel acusou repetidamente o Hamas de usar hospitais e outras instalações médicas como bases para operações militares, muitas vezes em túneis escavados sob os prédios hospitalares.

As IDF divulgaram fotos, imagens operacionais e material de interrogatórios que, segundo o exército, demonstram o uso, pelo Hamas, de hospitais para esconder armas, centros de comando, alojamentos e até reféns.

O exército afirma que suas operações em torno de hospitais, que deixaram algumas unidades fechadas ou parcialmente operacionais, buscaram proteger civis e pacientes em um ambiente de combate complexo, embora grupos de direitos humanos contestem essas alegações e continuem a acusar Israel de destruir os serviços de saúde do território como parte de uma campanha genocida.

Israel também defendeu a prisão de diretores de hospitais e outros profissionais de saúde acusados de colaborar com o Hamas, como o chefe do hospital Kamal Adwan, Hussam Abu Safiya, que, segundo as IDF, atuava como coronel no braço armado do Hamas.

_*Má medicina*_
Durante a guerra, Hamas e Jihad Islâmica Palestina, as duas principais forças combatentes em Gaza, evitaram identificar operativos comuns mortos nos combates. Nos últimos meses, porém, ambas começaram a publicar nomes em obituários on-line, com centenas de identificações divulgadas até agora.
Uma análise anterior do The Times of Israel de nomes publicados revelou que várias figuras identificadas como jornalistas eram, na verdade, operativos terroristas.

No início deste mês, o exército israelense apresentou detalhes sobre 12 jogadores de futebol mortos na Faixa de Gaza durante a guerra que, segundo Israel, foram identificados como operativos terroristas, criticando duramente a retratação internacional deles como atletas inocentes. Sete dos 12, incluindo um árbitro da FIFA, foram reconhecidos como membros pelo Hamas e pela Jihad Islâmica.

O Hamas continua divulgando novos nomes diariamente, e a Jihad Islâmica publica listas adicionais a cada poucas semanas.

*Entre os reivindicados pelos grupos terroristas estão várias figuras antes identificadas como enfermeiros, como Ahmad Adel Abu al-Hilal, que atuava como comandante de equipe na Unidade Central de Informação da Brigada de Rafah da Jihad Islâmica.*

Quando foi morto em Gaza, em 25 de maio de 2025, veículos palestinos, incluindo a TV oficial da Autoridade Palestina, noticiaram que ele trabalhava como enfermeiro no Hospital Europeu, no sul de Khan Younis, publicando uma foto dele com traje de enfermagem.

*A Jihad Islâmica também identificou Ayman Suleiman Abu Tir, morto em Gaza em 26 de junho de 2025, como comandante em sua Unidade Central de Operações.*

A página no Facebook do Sindicato dos Enfermeiros de Gaza identificou Abu Tir como enfermeiro no Hospital Nasser.

Uma base de dados de um site chamado _Genocide in Gaza_, que documenta moradores de Gaza mortos durante a guerra, o identifica como chefe do departamento de nutrição clínica do Hospital Nasser.

O _Genocide in Gaza_ se descreve em seu site como uma equipe jurídica independente que coleta informações e documenta o que chama de “atos de genocídio e massacres cometidos por Israel na Faixa de Gaza” desde 7 de outubro de 2023. Não foi possível obter comentário do site.

Jaber Abd al-Hamid Mohammadin foi apresentado pelo Ministério da Saúde de Gaza no Facebook como enfermeiro morto enquanto trabalhava na UTI do Hospital Infantil Rantisi, no norte de Gaza.

Segundo relatos em redes sociais, ele foi morto em 13 de dezembro de 2024. Contudo, não há registros conhecidos de operação terrestre das IDF no hospital naquele momento; a principal operação do exército ali ocorreu no fim de 2023.

*A Jihad Islâmica Palestina passou desde então a identificar Mohammadin como comandante em sua unidade de fabricação militar.*

Seis profissionais de saúde cujos nomes depois apareceram em listas do Hamas e da Jihad Islâmica Palestina de membros mortos na guerra constam de um relatório de 2024 publicado pelo _Healthcare Workers Watch_, grupo palestino que documenta profissionais de saúde mortos em Gaza e detidos por Israel.

Segundo seu site, o grupo compila informações monitorando redes sociais e cruzando dados com o Ministério da Saúde de Gaza, hospitais, associações profissionais e veículos locais.

O _Healthcare Workers Watch_ não respondeu ao pedido de comentário do The Times of Israel sobre se pretende atualizar o relatório ou emitir esclarecimentos.

Entre os listados pelo grupo está Ibrahim Abd al-Raouf al-Farra, que aparece no relatório como enfermeiro.

Segundo outra base de dados de mortos na guerra, mantida pelo Instituto de Estudos Palestinos, al-Farra atuava como instrutor clínico em uma faculdade de enfermagem, como enfermeiro em uma clínica particular e no Hospital Nasser, em Khan Younis. Uma foto publicada no Facebook em 2021 o mostra com um jaleco com o logotipo de um centro de juventude de Khan Younis.

*O Hamas, no entanto, listou al-Farra como um de seus operativos. De acordo com o grupo, ele serviu no Batalhão Osama bin Zaid da Brigada de Khan Younis e foi morto em 20 de outubro de 2023.*

O Instituto de Estudos Palestinos, sediado em Beirute, é um instituto independente de pesquisa que mantém a base de dados intitulada “Documentando o Ataque e a Destruição do Setor de Saúde na Faixa de Gaza”. Segundo o site do projeto, o objetivo é fornecer “informações precisas e detalhadas” sobre o que descreve como “ataques de Israel ao setor de saúde de Gaza durante a guerra genocida”. Não foi possível contatar o instituto.

O _Healthcare Workers Watch_ também lista Ahmad Mohammed Hassan Balousha como enfermeiro morto na guerra. Segundo a página no Facebook do Ministério da Saúde de Gaza, ele trabalhava na unidade de transplantes de órgãos do ministério.

*A Jihad Islâmica Palestina, contudo, o identificou como comandante na unidade militar-judiciária de sua Brigada Norte.*

Najm al-Din Nasser Abu al-Jabin também foi identificado como enfermeiro morto por Israel. *Segundo o Hamas, ele servia no Batalhão Fawzi Abu al-Qara da Brigada Norte do grupo e foi morto em 27 de outubro de 2023.*

De acordo com relatos vindos de Gaza, Salem Jumaa Shirab foi morto em 2 de março de 2024. Cerca de um ano depois, a Administração de Enfermagem do Ministério da Saúde de Gaza publicou no Facebook que ele havia trabalhado como enfermeiro no Hospital Nasser, em Khan Younis, e foi morto enquanto atuava em um hospital de campanha emiradense em Rafah.

Ele foi, desde então, indicado pela Jihad Islâmica como membro de seu departamento médico militar na Brigada de Khan Younis.

Mohammed Darram Abu al-Harbid consta na base do _Healthcare Workers Watch_ como fisioterapeuta ou terapeuta ocupacional morto durante a guerra. Em publicações no Facebook, feitas antes de 7 de outubro por uma instituição de caridade de Gaza que opera um centro de fisioterapia em Beit Hanoun, ele é descrito como especialista na área.

*No entanto, ele foi posteriormente identificado pela Jihad Islâmica como integrante de sua unidade de defesa aérea na Brigada Norte do braço militar da organização.*

O _Healthcare Workers Watch_ e a base _Genocide in Gaza_ listam Haitham Mohammed Hammad como enfermeiro ou funcionário do Ministério da Saúde.

*Um obituário da Jihad Islâmica lhe atribui um terceiro papel: comandante de célula no departamento médico militar de sua Brigada Norte.*

_*Médicos com armas*_
Em 25 de junho de 2024, os Médicos Sem Fronteiras (MSF) anunciaram a morte de Fadi Jihad al-Wadiya, um fisioterapeuta de 33 anos, pai de três filhos, que havia entrado na organização em 2018.

O comunicado expressava indignação com sua morte, afirmando que ele foi morto enquanto pedalava perto de uma clínica da MSF, “a caminho de prestar atendimento médico a outras pessoas feridas”.

Um dia depois, quando Israel acusou al-Wadiya de ser membro da Jihad Islâmica, a MSF respondeu que “não tinha qualquer indicação de que isso fosse verdade”.

“Não há justificativa para isso; é inaceitável”, protestou a entidade.

*Em fevereiro deste ano, a Jihad Islâmica identificou al-Wadiya como integrante da organização, descrevendo-o como auxiliar de sua unidade de fabricação militar.*

Desde então, a MSF acrescentou uma nota às suas postagens sobre al-Wadiya afirmando que “não tinha informação indicando que Fadi al-Wadiya estivesse envolvido em qualquer atividade militar antes de ser morto pelas forças israelenses”.

“Se as autoridades israelenses tivessem qualquer informação crível sobre o envolvimento de Fadi em atividades militares, elas nunca a compartilharam com a MSF, nem antes de sua morte, nem quando nós as procuramos imediatamente após para pedir esclarecimentos sobre as circunstâncias”, acrescentou o grupo. “Nós jamais empregaríamos, com conhecimento de causa, pessoas envolvidas em atividade militar. Qualquer funcionário envolvido em atividade militar representaria perigo para nossa equipe e para nossos pacientes.”

Al-Wadiya continua listado pela MSF como um de seus funcionários mortos na guerra, em uma página “In Memoriam”.

Nem todo o pessoal ligado à saúde identificado pelo Hamas e pela Jihad Islâmica Palestina atuava em funções clínicas. Alguns eram empregados em cargos de apoio dentro do sistema de saúde de Gaza.

Ahmad Faiz al-Dalu aparece em lista da Jihad Islâmica Palestina como comandante de equipe no Departamento de Treinamento da Unidade Central de Operações da Brigada da Cidade de Gaza.

A data exata de sua morte é incerta. Em julho de 2025, porém, a mídia de Gaza noticiou que seu corpo havia sido recuperado e o identificou como técnico em laboratório médico no Hospital Kamal Adwan. Veículos palestinos publicaram uma foto dele com uniforme do hospital.

Vários outros indivíduos identificados por Hamas e Jihad Islâmica como membros de suas organizações constam em diferentes bases de dados como funcionários do Ministério da Saúde de Gaza em cargos administrativos.

*Raed Abd al-Hamid Khdeir atuou como comandante de célula na Brigada de Khan Younis da Jihad Islâmica Palestina. A base do Instituto de Estudos Palestinos o identifica como funcionário administrativo do Ministério da Saúde de Gaza.*

Tamer Mohammed al-Hamidi aparece em lista da Jihad Islâmica como comandante de célula responsável por armamentos na Brigada Central da organização.

Segundo uma base on-line mantida por um grupo autointitulado _Shireen Observatory_, que documenta palestinos de Gaza e da Cisjordânia mortos por forças israelenses, al-Hamidi trabalhava em cargo administrativo no “Hospital Al-Aqsa”, aparente referência ao Hospital dos Mártires de Al-Aqsa, no centro de Gaza. Não foi possível obter comentário do Shireen Observatory.

O Instituto de Estudos Palestinos também identifica al-Hamidi como funcionário administrativo do Ministério da Saúde de Gaza.

Em 22 de junho deste ano, em meio a um cessar-fogo que entrou em vigor em outubro, Maysara Salah Nassar foi morto quando um veículo civil em que viajava foi atingido por Israel, segundo relatos de Gaza.

*Segundo a base _Genocide in Gaza_, Nassar era paramédico. Contudo, a Jihad Islâmica publicou um obituário identificando-o como comandante de célula no departamento médico militar da Brigada de Rafah da organização.*

Duas das figuras apontadas por Aizenberg não constavam em nenhuma dessas bases, mas foram identificadas como profissionais de saúde por seus locais de trabalho.

Após a morte de Munther Faiz al-Sharafa, em julho de 2025, uma clínica na Cidade de Gaza o *identificou como funcionário, sem especificar sua função. Al-Sharafa apareceu depois em lista da Jihad Islâmica como comandante de célula na Unidade de Administração Financeira da Brigada da Cidade de Gaza.*

Fonte: https://www.timesofisrael.com/gaza-death-notices-show-some-so-called-health-workers-were-operating-for-terror-groups/

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