Radin, uma pequena cidade na Lituânia, não era um lugar de grandes acontecimentos. Era conhecida, sobretudo, por abrigar a Yeshivá fundada pelo ilustre Rav Israel Meir HaCohen zt”l (Bielorússia, 1838 – Polônia, 1933), o Chafetz Chaim.
Em 1914, quando o Chafetz Chaim já era um homem idoso e sua obra sobre a importância de guardar a fala já havia se espalhado por comunidades judaicas ao redor do mundo, as notícias que chegavam a Radin não eram mais sobre disputas locais ou questões comunitárias. Eram sobre exércitos se mobilizando, fronteiras se fechando, um continente inteiro mergulhando em uma terrível guerra. Para as comunidades judaicas da Europa Oriental, a Primeira Guerra Mundial não foi um evento distante: trouxe deslocamentos em massa, fome e destruição de comunidades judaicas inteiras.
Diante desse cenário, o Chafetz Chaim não se limitou a lamentar os acontecimentos como uma tragédia externa, decidida nos gabinetes de generais e reis. Ele voltou seu olhar para dentro, para a própria conduta do povo judeu, para a maneira como as pessoas tratavam umas às outras nas ruas, nas sinagogas e nas mesas de Shabat. E ali, segundo ele, encontrava-se parte da resposta: o aumento de Lashon Hará, de brigas e de ódio gratuito entre irmãos, certamente havia contribuído para aquele terrível derramamento de sangue na guerra.
Não era a primeira vez que ele fazia essa conexão entre tragédias mundiais e erros do povo judeu. Sua vida inteira, e em especial após a publicação do “Sefer Chafetz Chaim”, em 1873, foi dedicada a mostrar que a fala não é um ato “pequeno” nem “particular”. Porém, naquele momento, diante da escala da destruição que ele observava, ele intensificou ainda mais esse chamado, insistindo, através de seus escritos, que o cuidado com a própria boca não era uma questão de etiqueta pessoal, e sim algo que reverberava em uma escala que ultrapassava qualquer compreensão humana.
Nesta semana lemos a Parashat Shoftim (literalmente “Juízes”), que traz muitas Mitzvót, especialmente na área de “Bein Adam Lehaveiro”, nos ensinando a importância de aprimorarmos nosso relacionamento com o próximo e aprendermos a respeitar e preservar os bens e a honra dos outros.
Um dos assuntos mais difíceis de entender na Torá são os Korbanót. Talvez, por envolverem a morte de animais e estarem tão distantes da nossa realidade, este assunto nos incomode tanto. Porém, precisamos saber que uma das principais funções dos Korbanót é trazer expiação pelas nossas transgressões, tais como o Korban Chatat e o Korban Asham, oferecidos quando cometemos certas transgressões específicas, ou o Korban Olá, cuja oferenda também proporciona expiação por Mitsvót que deixamos de cumprir. Se não fossem os Korbanót, as consequências dos tropeços que cometemos seriam muito piores.
O Talmud (Arachin 16a) traz duas transgressões como exceção, cuja expiação não pode ser alcançada através dos Korbanót comuns. Essas duas transgressões são o assassinato, cuja expiação vem através da “Eglá Arufá”, e o Lashon Hará, cuja expiação vem através do “Ktoret” (incenso oferecido no Beit Hamikdash).
A Parashá desta semana fala sobre a cerimônia da “Eglá Arufá”, um procedimento estabelecido pela Torá para o caso de um homem ser encontrado morto no campo, entre várias cidades, sem que se saiba quem o matou. Quando o corpo era encontrado, os anciãos e juízes das cidades próximas saíam para determinar, por meio de uma medição, qual era a cidade mais próxima do local do onde estava o corpo. A cidade considerada responsável devia trazer uma novilha, uma vaca jovem, que nunca tivesse trabalhado nem carregado jugo. Os anciãos levavam a novilha a um local de terra não cultivado, e ali seu pescoço era quebrado. Em seguida, os anciãos lavavam as mãos sobre o corpo da novilha e declaravam que suas mãos não haviam derramado o sangue do homem assassinado e que seus olhos não o haviam visto. Nossos sábios explicam que era uma declaração de que eles não haviam sido negligentes com a vítima. Significa que, caso tivessem deixado a vítima partir sem alimento ou acompanhamento, carregariam parte da culpa pelo assassinato.
Há um detalhe interessante no versículo final sobre o assunto da Eglá Arufá: “E você eliminará o sangue inocente dentre vocês fazendo aquilo que é correto aos olhos de D’us” (Devarim 21:9). Mas o que significa que o sangue inocente será eliminado com esta cerimônia? Isso por acaso trará o morto de volta à vida?
O significado mais simples desse versículo é que, ao cumprir a Mitsvá da Eglá Arufá, a pessoa está “fazendo aquilo que é correto aos olhos de D’us” e, dessa maneira, expiando o pecado do derramamento de sangue inocente. A cerimônia da Eglá Arufá expressa uma ideia profunda: mesmo quando o assassino não é encontrado, a sociedade não pode simplesmente considerar o assassinato um “problema sem solução”. Uma mancha espiritual foi criada. Os líderes da cidade mais próxima precisavam assumir a responsabilidade, demonstrar que não foram negligentes e pedir a D’us expiação pelo sangue inocente derramado.
Já o Rav Avraham ben Meir zt”l (Espanha, 1092 – 1167), mais conhecido como Ibn Ezra, oferece uma interpretação alternativa e inovadora desse versículo. Ele estuda o versículo como sendo uma advertência: você deve fazer aquilo que é correto aos olhos de D’us, isto é, cumprir as Mitsvót em geral, pois, dessa maneira, D’us fará com que nenhum sangue inocente seja derramado no meio de vocês.
Na verdade, o que o Ibn Ezra está explicando aqui é a aplicação do princípio “a recompensa por uma Mitsvá é outra Mitsvá” (Avót 4:2). O versículo, portanto, significa: “Vocês, participantes do Tribunal Judaico, devem cumprir as Mitsvót, pois desta forma será evitado que sangue inocente seja derramado. Por exemplo, cumpram a Mitsvá de acompanhar os viajantes e de garantir que as necessidades daqueles que estão viajando sejam atendidas. Se as pessoas justas, os estudiosos de Torá e os anciãos fizerem aquilo que deve ser feito, então todos os níveis da sociedade se comportarão adequadamente e sangue inocente não será derramado”.
Assim também ensinava o Rav Israel Salanter zt”l (Lituânia, 1810 – Prússia, 1883): “Quando fazem Lashon Hará em Vilna, a consequência é a profanação do Shabat em Paris”. O que ele estava nos ensinando? Vilna era a “Jerusalém da Lituânia”, e a Lituânia era a “Terra de Israel da Europa”. Vilna tinha a reputação de ser o lar de grandes estudiosos e líderes da Torá. Naturalmente, as pessoas dali mantinham um alto nível de observância das Mitsvót. Quais eram, então, suas transgressões? Elas acabavam cometendo a transgressão, difícil de ser evitada: falar de maneira inadequada sobre seus semelhantes. Mas a consequência desse erro não ficava restrita apenas às pessoas de Vilna. Qualquer enfraquecimento espiritual em Vilna produzia um “efeito bola de neve” em todo o mundo judaico. Portanto, em uma cidade como Paris, onde a comunidade judaica já naquela época tinha um comportamento muito mais permissivo, a consequência poderia ser a ocorrência de transgressões muito mais graves, como a profanação do Shabat.
É exatamente assim que o Ibn Ezra interpreta o versículo que fecha o assunto da Eglá Arufá: “Se você deseja garantir que não haverá sangue inocente derramado em sua terra, então você deve elevar o nível espiritual da sociedade como um todo, cumprindo até mesmo os mandamentos mais “comuns”, como acompanhar seus hóspedes, praticar atos de bondade e cumprir aquilo que é correto aos olhos de D’us”.
As pessoas costumam reclamar e dizer: “O país está decaindo moralmente”; “a moralidade está terrível”; “a sociedade é imoral”, etc. E, muitas vezes, ainda caímos no erro de pensar: “Isso não diz respeito a mim. O que eu posso fazer? Estou fazendo aquilo que devo fazer. Faço minhas rezas diárias, estudo Torá, cumpro as Mitsvót. Eu estou bem!”. Porém, a lição é que, se realmente fizermos aquilo que devemos fazer, então, em um nível metafísico, isso terá um efeito sobre o mundo inteiro. Mas, ao contrário, se falarmos Lashon Hará em Vilna, em Monsey, em São Paulo, em Jerusalém ou onde quer que vivamos, isso terá um efeito prejudicial e poderá permitir que os piores tipos de transgressão sejam cometidos em outros lugares.
Conclui o Rav Yssocher Frand shlita que a cerimônia da Eglá Arufá, portanto, carrega um ensinamento extremamente importante e atual. A Torá não permite que nos escondamos atrás da frase “Não fui eu”. Mesmo os anciãos da cidade mais próxima, que certamente não haviam cometido o assassinato, precisavam sair, se posicionar e declarar diante de D’us que haviam feito sua parte. Isso significa que não basta sermos “bons” isoladamente. A responsabilidade de elevar a sociedade como um todo é algo que pode garantir que “sangue inocente não seja derramado”, e recai sobre cada um de nós. Não como espectadores distantes de um mundo em decadência, mas como participantes ativos, cujo Serviço espiritual pessoal, feito com sinceridade, tem o poder de proteger não apenas a nós mesmos, mas o povo judeu inteiro.
Devemos nos importar mesmo com os pequenos detalhes, pois nenhuma Mitsvá é pequena demais. Ao cuidarmos da nossa fala e das nossas ações, estamos, de fato, cuidando do mundo inteiro. É a nossa responsabilidade social: garantir que não apenas nós estejamos bem, mas também todos à nossa volta.
SHABAT SHALOM – QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS NO LIVRO DA VIDA
R’ Efraim Birbojm
never again
Shabat shalom/Chaverim, é da maior importância que leiamos e assinemos a proposta legislativa acima, que ainda conta com apoio restrito, mas que facilitará enormemente a vida dos Judeus no Brasil! ASSINEM! APÓIEM!!!! DIVULGUEM!!!!
worldjornalistaandrehmendan.online
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