“Um grande dique protegia a cidade das águas de um rio. Durante muitos anos, o dique, que havia sido muito bem construído, suportou fortes chuvas e grandes enchentes, e os moradores confiavam em sua resistência. Até que, certa manhã, um dos funcionários responsáveis pela manutenção percebeu uma pequena rachadura em uma das paredes do dique. Era estreita e quase imperceptível. Ele chamou seu superior e mostrou o problema, sugerindo que aquela rachadura fosse consertada o mais rápido possível. O superior demorou para localizar a pequena rachadura. Quando finalmente a encontrou, deu risada e disse:
– Isso? Não é nada! Essa rachadura é minúscula. Não há com o que se preocupar. Cuidaremos disso depois.
Os dias passaram e ninguém voltou mais ao assunto. A rachadura continuou ali. No início, ela realmente não parecia representar perigo algum, pois o dique continuava firme e a cidade seguia sua rotina normalmente. Por isso, a cada dia que passava, aquela pequena abertura parecia menos importante. Até que chegou uma temporada de chuvas muito fortes. O nível do rio começou a subir, a pressão da água aumentou e a pequena rachadura, no início tão insignificante, começou a se alargar. A água então passou a penetrar lentamente pela parede do dique. Quando os responsáveis perceberam o problema, tentaram agir, mas já era tarde demais. A pequena rachadura havia se transformado em uma grande abertura. A pressão tornou-se insustentável e, finalmente, parte do dique cedeu. A água invadiu violentamente a cidade e provocou uma enorme tragédia.
O prefeito exigiu uma perícia para descobrir as causas do rompimento daquele dique, que parecia tão seguro e sólido. Os antigos registros da manutenção foram encontrados e ficou claro que o problema havia sido identificado muito antes. A tragédia não começou no dia em que o dique rachou. Ela começou no dia em que alguém viu aquela pequena rachadura e decidiu que ela era pequena demais para merecer atenção.”
Assim também acontece em nossa vida. Normalmente o perigo não começa com uma grande queda espiritual. Às vezes, começa com algo tão pequeno que parece não merecer nossa atenção: uma pequena inclinação do coração ou um pequeno afastamento. Enquanto tudo está tranquilo, podemos pensar: “Qual é o problema? Continuo sendo uma boa pessoa. Continuo cumprindo Mitzvót. Essa pequena imperfeição não muda quem eu sou”. Mas a vida também nos coloca sob pressão. E quando essa pressão aumenta, aquilo que parecia insignificante pode revelar uma fraqueza muito maior. Por isso, o verdadeiro trabalho espiritual não é esperar o momento em que nossa espiritualidade começa a desmoronar. É ter a sensibilidade e a agilidade de olhar para dentro enquanto a rachadura ainda é pequena, e corrigi-la antes que se transforme em uma tragédia.
Nesta semana recomeçamos a leitura da Torá com o Sefer Bereshit, que trata sobre a criação do mundo e as primeiras gerações da humanidade, até os nossos Patriarcas, que representam a criação espiritual do mundo. Infelizmente, logo as primeiras gerações já tiveram um comportamento lamentável, cometendo grandes transgressões que levaram, em pouco tempo, D’us a se arrepender de ter criado o ser humano
E quem primeiro tropeçou foi Adam Harishon, o ser humano criado pelas próprias Mãos de D’us, o personagem principal do início da Parashat desta semana, Bereshit (literalmente “No início”). D’us viu que não era bom o homem estar sozinho e, por isso, em um imenso ato de bondade, criou para ele uma companheira, Chava, que além de sua incomparável beleza, foi dotada de uma incrível sabedoria. Adam e Chava viviam no Gan Éden, um lugar paradisíaco, e sua única proibição era comer do fruto da “Árvore do conhecimento do bem e do mal”. Mas Chava, após ter sido induzida pela serpente que também habitava no Gan Éden, acabou comendo do fruto proibido e levou para que Adam também comesse. D’us ficou furioso com Adam e Chava por eles não terem cumprido Seu mandamento, e imediatamente chamou Adam para prestar contas pelo seu erro. Adam então se justificou para D’us: “A mulher que Você me deu, ela me deu da árvore, e eu comi” (Bereshit 3:12).
Aparentemente Adam estava se justificando por seu erro de uma maneira correta, já que a própria Torá ressalta que foi Chavá quem comeu primeiro o fruto e o levou para Adam. Mas vemos, pela continuação da história, que a justificativa não foi suficiente. Adam foi duramente castigado por D’us, perdendo sua imortalidade e o direito de ficar no Gan Éden. Mas o que havia de errado na justificativa de Adam?
A resposta está no entendimento das palavras do Shemá, que lemos duas vezes ao dia: “Guardem-se, para que o seu coração não seja seduzido, e vocês se desviem e sirvam outros deuses” (Devarim 11:16). O Midrash ensina que destas palavras aprendemos que: “Assim que uma pessoa se afasta da Torá, ela vai e se apega à idolatria”.
De acordo com o Rav Natan Tzvi Finkel zt”l (Império Russo, 1849 – Israel, 1927), mais conhecido como Alter MiSlabodka, essa ideia parece distante da nossa compreensão. Pelo simples fato de uma pessoa se afastar por um instante da Torá, ela imediatamente se apega à idolatria? Não vemos isso acontecendo no nosso dia-a-dia! Então o que estas palavras do Shemá Israel estão nos ensinando? E como isso se conecta com o erro de Adam Harishon?
É conhecida a grandeza de Adam Harishon, que era extremamente sábio. Segundo o Midrash, D’us pessoalmente testemunhou isso quando disse aos anjos: “A sabedoria dele é maior do que a de vocês”. E mesmo depois de ter pecado com a “Árvore do Conhecimento”, ele continuava sendo grandioso em sua estatura espiritual e na força de sua compreensão, a ponto de Avraham Avinu, o gigante espiritual, ter desejado ser enterrado na Mearat HaMachpelá pois Adam estava enterrado ali.
De acordo com o Talmud (Shabat 55b), o pecado de Adam foi tão sutil que nem mesmo os anjos perceberam sua gravidade. Eles perguntaram a D’us: “Por que Você decretou a morte sobre o homem?”. E o próprio Adam, cuja sabedoria era maior do que a deles, não percebeu onde estava a raiz de seu pecado, a ponto de argumentar diante de D’us: “A mulher que Você me deu, ela me deu da árvore, e eu comi”. Aparentemente, sua intenção era dizer: “Você me deu esta mulher para me ajudar, e foi Você Quem deu a ela uma compreensão maior do que a minha; eu deveria, portanto, ouvir a voz dela”. Por que, então, ele foi castigado com punições tão terríveis, sendo expulso do Gan Éden e condenado, assim como todas as gerações posteriores, à morte?
Rashi (França, 1040 – 1105) explica que para respondermos, precisamos analisar com mais profundidade a justificativa que Adam deu por ter cometido o seu grave erro. Quando ele afirmou: “A mulher que Você me deu”, ele estava sendo ingrato com D’us e com o bem que Ele lhe havia feito. Houve aqui uma negação da bondade de D’us. Ou seja, no fundo do coração de Adam havia algum tipo de falha no reconhecimento da bondade Divina. Os anjos não perceberam isso, e ele próprio também não sentiu. Mas D’us, que investiga o coração de cada criatura e conhece cada pensamento, revelou que havia algum tipo de imperfeição no interior de seu coração, proveniente de alguma característica ou pensamento negativo. Quando Ele perguntou a Adam: “Onde você está?” (Bereshit 3:9), obviamente que D’us sabia onde Adam estava. O Talmud (Sanhedrin 38b) explica que a expressão: “Onde você está?” significa “Para onde inclinou seu coração?”. Ou seja, D’us estava revelando que havia algum tipo de desvio pequeno, quase imperceptível, no coração de Adam.
E esse desvio, como um pequeno ponto e uma tênue mancha dentro do coração de Adam, criou raízes e produziu um fruto amargo em toda a humanidade. Depois de algumas gerações, quando veio a geração da Torre de Bavel, à qual D’us havia concedido grandes bondades, eles se rebelaram contra o Criador ao construir uma torre para subir aos céus e lutar contra Ele. Está escrito: “E D’us desceu para ver… aquilo que os Bnei HaAdam (filhos dos homens) construíram” (Bereshit 11:5). Mas por que está escrito “Filhos dos homens”? Por acaso eles eram filhos de jumentos e camelos? O Midrash responde que a linguagem “Bnei HaAdam” era uma referência a Adam Harishon, aquele mesmo que havia sido ingrato em relação às bondades que havia recebido de D’us. Naquele pequeno desvio no coração de Adam estava a raiz da qual surgiu a grande rebelião daquela geração contra D’us.
O Talmud (Sanhedrin 38b) ensina que “Adam tornou-se um herege”. É difícil compreender como um homem tão grande, cujo pecado nenhuma criatura havia sequer conseguido identificar, tenha feito uma transgressão com um aspecto de heresia ao comer o fruto da “Árvore do Conhecimento”! E como conciliar esta afirmação com o que afirma o Talmud (Eruvim 18b) de que Adam era um grande Chassid, isto é, fazia mais que D’us esperava dele?
A resposta é que, apesar de Adam realmente ter sido um grande Chassid e ter permanecido em um nível muito elevado durante todos os seus dias, e embora seu pecado tenha sido muito sutil, ainda assim, uma vez que em seu coração revelou-se algum tipo de desvio e houve uma interrupção em seu crescimento espiritual, isso foi considerado como uma heresia. A exigência feita ao ser humano não é apenas que ele não venha a cometer erros, mas também que, por meio de sua grande inteligência, ele não permita que sua percepção seja obscurecida. A pessoa não pode permitir que a escuridão se agarre a ela, ainda que minimamente.
As pessoas não costumam fazer grandes erros do dia para a noite. Em geral, é um processo de queda lenta e silenciosa, que começa com pequenas brechas no nosso temor a D’us. Por isso, nosso trabalho espiritual exige que façamos constantemente a nós mesmos a pergunta que D’us fez a Adam: “Onde você está?”, checando sempre nossas atitudes e pensamentos para, quando um pequeno desvio for identificado, imediatamente o consertarmos. Com reflexões diárias e pequenas atitudes, podemos manter nosso crescimento saudável.
SHABAT SHALOM
R’ Efraim Birbojm
never again
Shabat shalom/Chaverim, é da maior importância que leiamos e assinemos a proposta legislativa acima, que ainda conta com apoio restrito, mas que facilitará enormemente a vida dos Judeus no Brasil! ASSINEM! APÓIEM!!!! DIVULGUEM!!!!
worldjornalistaandrehmendan.online
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