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NUNCA PERCA A SENSIBILIDADE – PARASHAT LECH LECHÁ 5787 (23/out/26)
#judaismomessiâniconãoexiste

“O Rav Israel Salanter zt”l (Lituânia, 1810 – Prússia, 1883) chegou certa vez a uma cidade em pleno inverno. Os líderes da comunidade, honrados com a visita de um dos grandes mestres de Torá da geração, prepararam-lhe uma hospedagem confortável, onde poderia descansar tranquilamente durante sua estadia. Ao passear pela cidade, porém, o Rav Salanter deparou-se com uma realidade muito dura. Famílias pobres viviam em condições precárias, enfrentando o frio intenso sem a proteção adequada. No abrigo destinado aos necessitados, doentes e viajantes sem recursos, as condições eram especialmente difíceis: o vento entrava pelas frestas e o ambiente oferecia pouca proteção contra as baixas temperaturas.

O Rav Salanter procurou saber por que aquela situação ainda não havia sido resolvida. Afinal, os responsáveis pela comunidade certamente conheciam as condições em que aquelas pessoas viviam. Por que, então, os reparos necessários ainda não tinham sido feitos?

Foi naquele momento que sua atitude chamou a atenção de todos. O Rav Salanter decidiu que não ficaria confortavelmente instalado enquanto os pobres da cidade continuassem sofrendo com aquelas condições. Ele queria que a comunidade compreendesse que o sofrimento daquelas pessoas não poderia ser tratado como algo secundário. Por isso, resolveu se hospedar naquele abrigo, junto aos pobres, até que a comunidade resolvesse o problema. Ele não quis aceitar um conforto que faltava àquelas pessoas.

A situação era conhecida. Os necessitados estavam ali, diante dos olhos de todos. O problema não era a falta de informação, mas o fato de que aquela realidade havia se tornado parte da paisagem cotidiana. Aquilo que deveria despertar indignação e urgência já não provocava a reação necessária. O Rav Salanter, porém, não havia perdido essa sensibilidade. Onde os outros já estavam acostumados a enxergar uma situação habitual, ele continuava enxergando o sofrimento de seres humanos que precisavam de ajuda.”

Uma das maiores tragédias da humanidade é quando nos tornamos insensíveis e nos acostumamos com aquilo que deveria nos indignar, como quando o mendigo vira parte da paisagem urbana, a corrupção vira aceitável e o roubo vira parte do nosso cotidiano.

Nesta semana lemos a Parashat Lech Lechá (literalmente “Vá por você”), que começa a descrever com detalhes a vida de Avraham Avinu, o nosso primeiro patriarca. De Avraham recebemos como herança espiritual a força para superarmos os testes que surgem em nossas vidas. Avraham não se tornou uma grande luz para as futuras gerações simplesmente por ter nascido com uma missão especial. Ao longo de sua vida, ele trabalhou constantemente para se elevar espiritualmente, superar suas próprias limitações e se desconectar dos traços de caráter negativos. Apesar de passar por situações muito difíceis, como uma época de fome, o sequestro de sua esposa, uma grande guerra e a ordem de sacrificar seu próprio filho, Avraham nunca questionou D’us. Ao contrário, através de cada teste e dificuldade ele se conectava ainda mais à sua espiritualidade.

Um dos difíceis testes de Avraham foi ele ter que abandonar sua própria casa e sua comodidade para ir a uma terra estranha. D’us prometeu que, ao chegar lá, ele receberia muitas Brachót. Avraham confiou em D’us e cumpriu o comando, deixando para trás tudo o que tinha. Porém, o que aconteceu quando Avraham chegou a Erets Knaan? Uma grande fome. Onde estava a Brachá que D’us havia prometido? Mas Avraham nunca questionou, nem mesmo em pensamento. Ele simplesmente pegou sua família e foi ao Egito em busca de comida.

No caminho para o Egito, a Torá descreve algo estranho que ocorreu: “E aconteceu que, quando estavam prestes a entrar no Egito, ele (Avraham) disse à sua esposa Sarai: ‘Eis que agora sei que você é uma mulher de bela aparência… Por favor, diga que você é minha irmã… para que minha vida seja preservada graças a você’” (Bereshit 12:11,13). Avraham pediu a Sara que dissesse que era sua irmã, para protegê-lo dos egípcios, que poderiam cobiçá-la e matá-lo caso descobrissem que ele era seu marido. Os valores dos egípcios eram tão deturpados que, em vez de respeitarem o casamento, poderiam assassinar o marido para se apoderarem da esposa.

Porém, esse acontecimento desperta alguns questionamentos. Em primeiro lugar, por que a Torá achou importante nos informar que essa conversa aconteceu quando Avraham e Sara já estavam próximos de seu destino, como está escrito “quando estavam prestes a entrar no Egito”? Além disso, como pode ser que uma questão de tamanha gravidade não tenha sido discutida antes? Avraham deixou para discutir um assunto que envolvia risco de vida apenas quando estava prestes a entrar em uma terra habitada por pessoas imorais?

Rashi tenta responder este questionamento ao explicar o que significa que Avraham percebeu a beleza excepcional de Sara só ao se aproximarem do seu destino. É uma informação difícil, já que, normalmente, quando duas pessoas se conhecem, a aparência física é uma das primeiras coisas que percebem uma na outra, e eles já estavam casados há muito tempo. O que ocorreu para que a beleza de Sara fosse percebida naquele momento?

Uma explicação de Rashi é que Avraham certamente já tinha percebido a beleza de sua esposa. Porém, devido às dificuldades de uma viagem, é normal que a aparência da pessoa se torne menos atraente. No entanto, Avraham percebeu que Sara manteve a sua beleza mesmo durante a viagem, e foi isso que lhe chamou a atenção.

Rashi traz ainda outra explicação. Avraham já havia percebido a beleza de Sara, mas ele sentiu que havia chegado o momento em que deveriam se preocupar com isso, pois eles estavam prestes a chegar no Egito, um lugar de pessoas com feições pouco atraentes, que não estavam acostumados a ver uma mulher muito bonita.

A terceira explicação de Rashi é talvez a mais interessante. Avraham e Sara eram pessoas tão recatadas e espiritualizadas que realmente Avraham não havia percebido a beleza física de Sara até aquele momento. Então, o que ocorreu para que a percepção de Avraham mudasse?

Explica o Rav Yochanan Zweig shlita que a terra do Egito era conhecida pela má índole de seus habitantes, pessoas materialistas, entregues aos próprios desejos. Em geral, uma pessoa que vive em uma sociedade decadente acaba sendo influenciada por ela, mesmo que não se envolva pessoalmente em nenhum comportamento perverso. Esta situação se compara a uma pessoa que entra em um curtume, local com cheiro muito forte e desagradável. Mesmo que a pessoa não adquira nada, ainda assim suas roupas absorverão o cheiro ruim do lugar.

É isso o que os nossos sábios ensinaram ao afirmar: “Afaste-se de um mau vizinho e não se associe a uma pessoa perversa” (Avót 1:7). Por que em relação ao mau vizinho está escrito “afaste-se”, e não apenas “não se associe”?
Pois o mau vizinho, aquele que já está perto, certamente vai nos influenciar negativamente. Por isso, a única solução é nos afastarmos. Talvez isso explique o que ocorreu com Avraham. Ele estava em um nível tão elevado que olhava sua esposa de uma maneira apenas espiritual, sem sequer perceber o quão ela era fisicamente bonita. Ao se aproximar do Egito, Avraham recebeu influências negativas do comportamento materialista dos egípcios, a ponto de perceber a beleza física de sua esposa, algo que nunca havia lhe chamado a atenção.

Entretanto, o versículo diz explicitamente que, quando Avraham reparou na beleza de Sara, eles ainda estavam se aproximando, isto é, não haviam nem mesmo entrado em contato com os egípcios. Então como Avraham já havia recebido influências negativas? O Rav Yochanan Zweig responde que talvez a Torá esteja nos ensinando que, embora um Tzadik do calibre de Avraham não se deixasse arrastar pela imoralidade da sociedade, esse ambiente ainda exercia uma influência sutil sobre ele. Mesmo que ele ainda nem sequer vivesse naquela sociedade, a simples proximidade já o afetava.

Este é um ensinamento impressionante, atual e importante para as nossas vidas e para a educação dos nossos filhos. Uma das grandes dificuldades da natureza humana é que, muitas vezes, sabemos que algo está errado. Porém, quando convivemos com determinada realidade, deixamos de sentir a mesma necessidade de reagir. O ambiente não precisa nos convencer explicitamente a mudar nossos valores, basta que nos acostumemos com aquilo que antes nos incomodava. É justamente por isso que precisamos proteger nossa sensibilidade interior. Não basta perguntar se estamos fazendo algo errado. Precisamos também perguntar se continuamos percebendo o que é certo e o que é errado, e se ainda nos incomodamos com aquilo que deveria nos incomodar.

Talvez isso se conecte com o início da nossa Parashá, na qual D’us mandou Avraham se afastar de sua casa e de sua família. Avraham precisava abandonar as influências que haviam marcado sua vida até então para construir uma identidade espiritual própria. E essa missão não terminou quando ele deixou sua terra natal. Mesmo depois de se tornar um grande Tzadik, ele continuava precisando estar atento às influências que poderiam afetá-lo.

Isso nos ensina algo fundamental: não basta tomar uma decisão correta uma vez na vida. Não basta decidir que queremos ser pessoas boas e educar nossos filhos com determinados valores. Precisamos renovar essas escolhas constantemente. O verdadeiro “Lech Lechá” talvez seja justamente isso: ter a coragem de perguntar a nós mesmos se estamos vivendo de acordo com aquilo em que acreditamos ou se, aos poucos, estamos nos tornando aquilo que o ambiente ao redor nos ensina. Às vezes, para nos aproximarmos de quem realmente queremos ser, precisamos nos afastar daquilo que está nos afastando de nós mesmos.

SHABAT SHALOM

R’ Efraim Birbojm

never again

Shabat shalom/Chaverim, é da maior importância que leiamos e assinemos a proposta legislativa acima, que ainda conta com apoio restrito, mas que facilitará enormemente a vida dos Judeus no Brasil!  ASSINEM! APÓIEM!!!! DIVULGUEM!!!!
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