“Jerusalém, véspera de Sucót de 1963. Uma livraria no bairro de Meá Shearim havia se transformado em um local de venda de Arbaat Haminim. O ambiente estava movimentado. Muitos judeus examinavam cuidadosamente os Etroguim, muitas vezes munidos de lupas, procurando qualquer pequena imperfeição. Afinal, todos queriam encontrar o Etrog mais bonito para cumprir a Mitsvá. De repente, as pessoas abriram espaço respeitosamente para a entrada de um senhor idoso. Era o Rav Aryeh Levin zt”l (Império Russo, 1885 – Israel, 1969), mais conhecido como “Tzadik de Yerushalaim”.
O Rav Aryeh cumprimentou o vendedor e perguntou se poderia pegar o Etrog que havia encomendado. O vendedor sem demora lhe entregou o Etrog, demonstrando enorme reverência pelo rabino. O Rav Aryeh agradeceu, lançou apenas um olhar rápido sobre o Etrog, guardou-o e saiu apressadamente da loja.
Um conhecido do Rav Aryeh, que também estava na loja, viu aquela cena e ficou muito intrigado. Como era possível que todos estivessem examinando os Etroguim com tanto cuidado, enquanto o Rav Aryeh, um dos grandes Tzadikim da geração, havia escolhido o seu praticamente sem examiná-lo? Não conseguindo conter a curiosidade, correu atrás dele e perguntou:
– Rav, desculpe incomodar, mas por que todas aquelas pessoas examinam os Etroguim tão minuciosamente, procurando até a menor imperfeição, enquanto o senhor olhou rapidamente para o seu Etrog e saiu?
– Você fez uma boa pergunta – respondeu o Rav Aryeh, enquanto continuava a caminhar apressadamente – Todos sabem que existem duas Mitsvót que devemos cumprir com “Hidur”, isto é, embelezamento. Uma delas é a Mitsvá do Etrog, sobre o qual a Torá diz que devemos pegar um fruto de uma árvore bonita. Aquelas pessoas estavam examinando os Etroguim para garantir que fossem o mais bonito possível. Mas existe outra Mitsvá que também devemos cumprir de maneira especial: “VeHadarta Pnei Zaken”, honrar a pessoa idosa.
O Rav Aryeh então explicou o motivo de sua pressa. Antes de ir à venda dos Arbaat Haminim, ele havia passado em um laboratório de próteses dentárias para buscar a dentadura de um senhor que vivia em um asilo. O Rav Aryeh havia deixado a dentadura para conserto logo depois de Yom Kipur e precisava devolvê-la ao dono antes do jantar. Aquele senhor já estava dois dias sem conseguir comer normalmente. Ele precisava amolecer o pão no leite para conseguir se alimentar. Rav Aryeh queria chegar o mais rápido possível, para que aquele homem pudesse finalmente desfrutar de uma refeição decente, como qualquer pessoa. Por isso, não podia perder tempo examinando seu Etrog. Precisava correr para pegar o ônibus número 11, que poderia chegar a qualquer momento.
E assim, enquanto todos estavam concentrados em encontrar o Etrog mais bonito para Sucót, o Rav Aryeh estava preocupado em proporcionar a um senhor idoso a possibilidade de voltar a se alimentar normalmente.”
O Rav Aryeh Levin nos ensina que a grandeza espiritual não se manifesta apenas nos momentos extraordinários, quando precisamos realizar grandes atos. Muitas vezes, ela aparece justamente nas pequenas decisões do cotidiano. Por exemplo, quando precisamos escolher entre nossa própria conveniência e a necessidade de outra pessoa. É nesses momentos aparentemente simples que temos a oportunidade de revelar quem realmente somos.
A Parashá desta semana, Chaie Sara (literalmente “A vida de Sara”) começa descrevendo o falecimento de Sara, a nossa primeira matriarca. A Parashá então descreve o intrincado processo de negociação da Mearat Hamachpelá, local onde Avraham queria sepultar sua amada esposa. O terreno pertencia a um Chitita chamado Efron, que concordou em vendê-lo para Avraham pelo valor abusivo de 400 moedas de prata.
Avraham passou por muitas dificuldades e testes na vida. Nossos sábios ensinam que “Avraham Avinu passou por dez testes, e superou todos eles” (Avot 5:3). A maioria dos comentaristas concorda que o comando para Avraham sacrificar seu próprio filho Yitzchak, que lemos na Parashat da semana passada, constituiu o décimo e último teste. De acordo com esta opinião, Avraham atingiu o ápice de sua espiritualidade ao superar esse teste.
Porém, o Rabeinu Yoná (Espanha, 1180 – 1263), em seu comentário sobre o Pirkei Avot, discorda da opinião da maioria dos comentaristas e considera o episódio narrado na Parashá desta semana, relacionado ao sepultamento de Sara, como o décimo e último teste de Avraham. Qual foi exatamente o teste? O fato de Avraham ter precisado comprar de Efron, por um valor extremamente elevado, um terreno para sepultar sua esposa, justamente na terra que D’us havia lhe prometido.
A opinião do Rabeinu Yoná está baseada em um ensinamento do Talmud (Baba Batrá 15b), que registra um testemunho do próprio Satan sobre Avraham: “D’us, percorri o mundo inteiro e não encontrei ninguém tão fiel quanto Seu servo Avraham. Pois Você disse a ele: ‘Levanta e percorre toda a terra… pois a você Eu a darei’ (Bereshit 13:17). E, mesmo assim, quando ele não conseguiu encontrar nenhum lugar para sepultar Sara até comprar um lugar por quatrocentos shekalim de prata, mesmo assim ele não reclamou dos Seus caminhos”.
Mas não parece anticlimático esse ter sido o último teste? A pergunta fica ainda mais difícil de acordo com o Rav Meir Levush zt”l (Ucrânia, 1809 – 1879), mais conhecido como Malbim, que afirma que os testes pelos quais Avraham passou foram se tornando progressivamente mais difíceis. Então, em que sentido o teste de ter que pagar pelo local de enterro de Sara pode ter sido mais difícil do que o teste de sacrificar o próprio filho?
No futebol, existe uma enorme diferença entre uma partida comum e o jogo da final. Quando um jogador sabe que aquele é o momento decisivo, que tudo está em jogo, ele consegue despertar dentro de si enormes reservas de força. Porém, em uma partida comum, é difícil encontrar dentro de si essas mesmas forças. Da mesma forma, quando alguém sabe que está sendo posto à prova, às vezes consegue agir, durante um curto período, em um nível extraordinário, muito acima de suas capacidades habituais, o que dificilmente acontece no cotidiano.
Quando Avraham recebeu a ordem de sacrificar seu filho, logo percebeu que estava diante de um grande teste. Com a consciência da grandiosidade daquele momento, reuniu toda a sua força espiritual. A adrenalina tomou conta dele, e Avraham conseguiu estar à altura daquele desafio. Já o episódio da compra do terreno para o sepultamento de Sara foi apenas mais um dia comum, uma situação do cotidiano, que pode acontecer com qualquer um de nós. Avraham se viu diante daquela situação angustiante, na qual não esperava estar sendo testado. A adrenalina não estava em alta. Não havia nenhuma voz em sua cabeça dizendo: “Chegou a hora do teste! Este é o momento decisivo!”. Quando uma pessoa consegue estar à altura de uma situação mesmo nessas circunstâncias, isso demonstra sua verdadeira natureza. Em certa medida, até mais do que aquilo que poderia ser demonstrado em um teste como sacrificar o próprio filho.
Qual foi o grande ensinamento do teste do enterro de Sara? Explica o Rav Yssocher Frand shlita que o ensinamento está no fato de que Avraham não apresentou reclamações nem questionamentos quando enfrentou a frustração de ter que pagar um preço exorbitante por um pequeno terreno, em uma terra que D’us havia prometido que seria inteiramente sua. Ele não protestou: “D’us, o que Você está fazendo comigo?”. Mas como sabemos que Avraham não questionou? Talvez ele tenha passado o tempo todo pensando: “Isto não é justo! Você me prometeu toda esta terra, então por que preciso passar por essa situação humilhante com Efron?”. Talvez fosse exatamente isso que Avraham estivesse pensando! Como sabemos qual foi a reação de Avraham?
A resposta está baseada em um comentário do Midrash sobre o versículo: “E Avraham prostrou-se diante dos membros do conselho” (Bereshit 23:12). O Midrash afirma: “Aprendemos daqui que devemos agradecer pelas boas notícias”. Por que o Midrash utiliza justamente esse episódio para ensinar sobre a importância da gratidão?
Na realidade, essa foi a segunda vez que Avraham se prostrou. Quando ele compareceu pela primeira vez diante dos Bnei Chet, ele também havia se prostrado. O Midrash está destacando que a segunda reverência não foi uma saudação de cortesia aos Bnei Chet, pois isso ele já havia feito anteriormente. Dessa vez, Avraham estava se prostrando diante de D’us. Era uma expressão de agradecimento por ter recebido a “boa notícia” de que finalmente havia conseguido um local para sepultar sua esposa. Se a atitude de Avraham fosse a de alguém que pensava: “Eu não merecia passar por isso”, ele não teria sentido gratidão. Fica claro que, se ele se prostrou para expressar seu agradecimento a D’us, isso é uma demonstração inequívoca de que não tinha reclamações nem guardava ressentimento pelas dificuldades que precisou enfrentar para adquirir o terreno do sepultamento.
Às vezes, pensamos que nossa grandeza espiritual é medida pelos grandes momentos da vida, quando precisamos fazer um sacrifício extraordinário, enfrentar uma dificuldade enorme ou tomar uma decisão muito importante. Mas a vida é composta principalmente de momentos comuns. São as pequenas decepções, as dificuldades do dia a dia e as situações que não acontecem como gostaríamos que põem nossa personalidade à prova. É mais fácil nos preparar quando sabemos que estamos diante de um grande desafio. O difícil é manter nosso nível espiritual quando somos surpreendidos por uma pequena dificuldade, quando ninguém está olhando e sequer percebemos que estamos sendo testados. A verdadeira grandeza não se revela apenas na maneira como a pessoa enfrenta os grandes desafios da vida, mas principalmente na maneira como reage às pequenas dificuldades do cotidiano.
SHABAT SHALOM
R’ Efraim Birbojm
never again
Shabat shalom/Chaverim, é da maior importância que leiamos e assinemos a proposta legislativa acima, que ainda conta com apoio restrito, mas que facilitará enormemente a vida dos Judeus no Brasil! ASSINEM! APÓIEM!!!! DIVULGUEM!!!!
worldjornalistaandrehmendan.online
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